segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Justiça


JUSTIÇA

O que a lei

não redime

é o crime

com defeito.


Se bem-feito

ou bonito,

o delito

talvez rime

com direito.


Se perfeito,

ora, o crime

é a lei.

Eugênio Bucci
Ilustríssima, Domingo, 21 de agosto de 2011, Folha de São Paulo, página 10.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Vida longa



"Hoje, eu vejo que uma das
gratificações de uma longa
vida é poder revisitá-la."


Roberto Damatta

terça-feira, 26 de abril de 2011

Ouvindo e tentando entender as razões dos outros



Quando eu faço triagens de pessoas que querem se divorciar, ouvindo-as, eu acabei concluindo o seguinte:

 
Por que o amor desaparece? Aquele casal que se amava e que depois de algum tempo, que nos dias atuais é cada vez menor, procura um advogado, senta-se diante dele e manifesta o desejo de não viver mais junto. Por vezes aqueles dois que se amavam nem se olham...olham para o advogado, para o teto, para o chão, para a estante cheia de livros mas não olham para aquela pessoa que está ali sentada ao lado dela e que outrara fora o amor de sua vida. É perceptível concluir ao ouvir esses casais à beira do divórcio que todo mundo busca, mas pouca gente consegue encontrar um amor que supere o maior dos desafios: o tempo. Num grande amor, capaz de sobreviver ao lado B da vida (a rotina, a dor, a doença, as instabilidades e as dificuldades financeiras) é preciso entender que o outro é, na verdade, muito diferente de nós. Nâo é nossa alma gêmea. Não sendo duas pessoas iguais, é preciso ser humilde e tentar compreendê-lo ou compreendê-la colocando-se no seu lugar.

É preciso entender também que uma relação amorosa não sobrevive sem diálogo. Mas isso não significa exclusivamente discutir a relação. Dialogar pode ser tratar de fatos do dia a dia, da família, do trabalho e até da vida e suas implicações. Os homens sempre imaginam que vão levar bronca quando começa uma conversa a dois. A diferença é que eles encaram conversas como um jeito de resolver problemas. Solucionar problemas é a forma masculina de demonstrar interesse. Aprenda a ouvir as queixas e as críticas dele sem se revoltar. O homem não encontra na mulher uma boa interlocutora porque ela não encara como sentimento as experiências que ele traz para a conversa. Mal interpretado, ele acaba silenciando. O ideal é revelar seus sentimentos, sem acusar. Diga sempre: é difícil para mim quando... ou fico triste ao perceber que... Isso não quer dizer que você deva engolir sapos. Pessoas que não dizem o que sentem acumulam mágoas e, mais cedo ou mais tarde, elas reaparecem e daí explodem. A ideia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem da união. Uma das chaves da felicidade a dois é a capacidade de se adaptar. O casal tem de administrar a imprevisibilidade da vida, sem sobrecarregar a relação com as tensões do dia a dia. O amor companheiro nasce da criatividade, que ensina a lidar com as divergências, sem querer mudar o parceiro.

segunda-feira, 7 de março de 2011

8 de março, DIA INTERNACIONAL DA MULHER

CÂNTICO DA TERRA

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda a vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande mãe universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

CORA CORALINA
Coleção Melhores Poemas, seleção de Darcy França Denófrio, Editora Global Editora, 3º edição, 2004, São Paulo, páginas 311/312
http://www.globaleditora.com.br/

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As artérias da pedra



AS ARTÉRIAS DA PEDRA


A pedra não filosofa.

Ela bloqueia no seu bloco

de pedra o pensamento

e a sua corda.

A pedra não acorda as coisas

nem dá corda

para metafísicas plangentes.

No seu bloco bloqueado,

a pedra dispensa a ânima

e o ânimo do fluxo líquido

das correntes.

A pedra não corre.

Ela se estaca

e se adensa

no lugar em que se assenta.

Quieta,

a pedra é menos lição

e mais experiência.

Contra ela batem coisas,

batem ventos

e batem outras pedras

diversas.

Mas ela não se move

nem se dispersa

em sua imóvel

siesta.

Nem no sono de sua siesta,

a pedra regurgita por dentro

algum pétreo

som de estômago.

Ou algum flúor

indômito

de qualquer ânsia

de vômito.

A pedra não metaboliza

nem expulsa seus alimentos

nos íntimos arcanos

de seu templo.

Ela concentra nos intestinos

de sua natureza

a cúpula fechada

e a argamassa espessa

de sua igreja.

Isto porque a pedra

mais dorme

do que come.

E o sono dela não é nem sonso

nem elétrico.

Seu sono de pedra

não é o sono épico

ou lírico

de um homem que sonha leve

e aceso.

Bem ao inverso,

seu sono,

de chumbo eterno,

é um sonho paralítico

e paquidérmico.

Tanto que,

silêncio calmo,

as artérias da pedra

são átomos

que, dentro dela,

não se explodem,

compactos que são

em seus ásperos

conformes.

Pois esta é a ciência

de seu nome: - a pedra

não tem as artérias

das árvores,

nem as artérias de nosso corpo

plantado nas veias

de nossa carne.

Dessa ciência,

a diferença nasce,

magna e plena,

entre a pedra

(com o minério esquivo

do seu todo exposto)

e a nossa carne

(com o mistério vivo

no peso de nosso corpo).

Por isso,

a diferença da ciência

da pedra

está no confronto

pronto de suas artérias.

E a diferença é esta:

- As artérias da pedra

só se fixam no todo

dos seus átomos exangues

e impávidos.

Assim inerte,

a pedra inscreve

o império

de seu monólogo fechado.

- As artérias do corpo,

ao contrário,

só se movem na carne

do nosso sangue

e seus intrépidos coágulos.

Assim ativa,

a carne aviva

o espelho

de seu diálogo sangrado.
 
Autor:
Mario Chamie